segunda-feira, novembro 28, 2005

Uma mídia mais humilde



Por Pedro Doria


Publicado no site nominimo, em 29.11.2005


O surgimento da Internet comercial lançou o jornalismo impresso na pior crise de sua história. O drama não se conta em relatórios trimestrais ou na flutuação de ações nas Bolsas; tampouco é medido pela quantidade de demitidos nas redações de todo o mundo. Tudo é conseqüência: o drama é que adolescentes e jovens adultos, em meados da primeira década do século, lêem muito menos jornais do que liam. É nesta idade que se cria o hábito – e o hábito desta turma é se informar pela Internet.

A cada geração, o número de consumidores de jornais diminui – e a curva está se inclinando numa velocidade estonteante. Ponha-se num gráfico a diminuição de circulação dos jornais nos EUA, por exemplo, e o fim tem data marcada. É em 2043. Dificilmente acontecerá, deve haver uma estabilização em algum momento. Mas a crise é real. Philip Meyer tem 75 anos, é um velho repórter aposentado do grupo Knight Ridder, que publica mais de uma dezena de jornais nos EUA, professor da Universidade da Carolina do Norte e autor de “The vanishing newspaper” (O jornal desaparecendo). Ele foi entrevistado por NoMínimo por telefone.

Jornalistas não costumam gostar de discutir números e rentabilidade porque consideram que seu negócio é diferente de outros negócios. É um serviço público, exige responsabilidade social, os investimentos não podem depender apenas de retorno monetário em cada decisão. Nos tempos correntes, da economia dominada por analistas que vêem planilhas e apenas, é um argumento difícil de defender.

Meyer sugere um novo modelo econômico para analisar a viabilidade da imprensa: é o modelo da influência. O que a imprensa oferece é influência, influência social e influência comercial. A influência social está na divulgação daquilo que acontece na comunidade. O enfoque nos problemas força mudanças de rumo. Esta influência não está à venda. A influência comercial vai dos grandes anúncios aos classificados, e vende-se. A relevância de um órgão de imprensa é dada por sua influência social e é o público quem decide isto. Se o jornal for relevante, venderá bem seus anúncios.

Influência social não se cria num dia, tampouco se perde rapidamente. Um jornal que ganhou influência pode depenar sua redação, perder qualidade, e ainda assim, durante alguns anos, os leitores vão comprá-lo. Um dia acaba. A manutenção da relevância se dá investindo em reportagem e análise, em se mostrar sempre capaz de encontrar novos aspectos do cotidiano que precisam melhorar. Às vezes, parece investimento a custo perdido. A longo prazo, faz sentido.

Mas, para se sustentar, não basta influência social. É preciso que os anunciantes se interessem pelo veículo. E se o veículo não atrai mais leitores, há um problema. Em meados dos anos 90, o presidente da Knight Ridder, Tony Ridder, reuniu vários dos editores de seus jornais para conversar sobre os destinos do negócio. Um deles perguntou o que é que mais lhe dava medo, o que fazia com que perdesse o sono. "Classificados eletrônicos", respondeu Ridder.

Este mês houve o lançamento do Google Base, e o Google Base oferece classificados eletrônicos de graça. Então é isso? Acabou?
É difícil dizer. Acho que jornais ainda podem ser rentáveis, mas não nos níveis aos quais os proprietários estão acostumados. É um ramo habituado a margens entre 20% e 40% de lucro e vão ter que lidar com uns 6%. Não há como fazer esta transição sem muito sofrimento e crise. Eles estão numa situação difícil.
O que pode mantê-los vivos sem classificados?

Os classificados correspondem a 40% da renda com anúncios em jornais. E há outras maneiras de financiar. Uma delas seria cobrar mais dos leitores. De qualquer forma, a propaganda grande ainda é importante para os lojistas locais aqui nos EUA. Também há sinais de que os grandes anunciantes nacionais poderão voltar, conforme a audiência da televisão fica mais fragmentada.

A maior preocupação dos jornais no Brasil, hoje, é como atrair adolescentes e jovens de vinte e poucos. Eles recebem notícias pela Internet.

Isto também é verdade para os Estados Unidos. A maneira de os jornais lidarem com isso é desenvolver produtos online que lhes permitam manter sua influência com os jovens. E isto quer dizer conteúdo original, dirigido diretamente aos jovens, não apenas a reprodução do que é impresso.

Seu modelo de influência se presta a toda a indústria de informação, certo?
Certo.

Porque às vezes parece que os jornais serão um produto de nicho no futuro.
É bem possível. E talvez a maneira de aproveitar este modelo de influência seja produzir um híbrido que utilize o online para o noticiário e o impresso para uma análise mais cautelosa. Outro modelo seria usar o online para todas as funções jornalísticas e ter um impresso semanal que seja um resumo das notícias. Tem um produto impresso novo nos EUA chamado "The Week", que traz um sumário bastante conciso das notícias nacionais e internacionais da semana. Ultimamente tenho me viciado nele, porque traz tudo o que perdi ao longo da semana.
O senhor lê jornais?
Sim. Assino três, um local, o “USAToday” e o “Wall Street Journal”.

E usa a Internet?

Sim, claro, especialmente para acompanhar as notícias do dia que me interessam mais. Estou sempre encontrando sites interessantes.
A Internet conseguirá financiar grandes redações e a manutenção de um repórter numa pauta por meses a fio?
Algum modelo precisará ser encontrado porque a sociedade precisa disto. Se as empresas não conseguirem fazê-lo, então ONGs o farão. E isso já está acontecendo aqui, posso citar duas organizações. Uma é o Centro por Políticas Eficazes e a outra o Centro pela Integridade Pública. Eles fazem reportagens investigativas. O Centro pela Integridade Pública foi fundado por um repórter de televisão que estava frustrado por conta de a empresa na qual trabalhava não permitir que investigasse o que ele considerava importante.

O cidadão comum sabe que jornalismo é importante?

Bem, de vez em quando, temos um momento dramático em que isto fica evidente. O melhor exemplo é Watergate. Agora há reportagens interessantes a respeito das origens a Guerra no Iraque.

Como as de Seymour Hersh para a “New Yorker”?

Sim, e como as da sucursal em Washington da Knight Ridder, que primeiro questionaram a existência de armas de destruição em massa.

E as pessoas reagem a isto?

Sim. Mais importante, talvez, os vilões da história reagem. O princípio básico do jornalismo é que se você joga luz sobre os problemas, eles se resolvem.

Como o senhor vê blogs e o jornalismo amador online?

Eles são como os panfletários dos primeiros cem anos após a invenção da imprensa. O que aconteceu com aqueles que escreviam panfletos é que após um tempo se organizaram e formaram jornais. Acho que os blogueiros vão acabar montando algum tipo de organização hierárquica. Não sei que forma terá, mas potencialmente é ótimo. Eles terão que dar forma a algum tipo de instituição que possa ser responsabilizada pelo que publica.

Quando o blogueiro solitário vende seus próprios anúncios, rompe-se a separação entre quem vende anúncios e quem produz o editorial. Esta quebra da separação entre Igreja e Estado não é preocupante?

Provavelmente sim. Mas não podemos nos esquecer de que o que chamamos nas redações de separação entre Igreja e Estado é uma divisão artificial criada para resolver abusos sérios que existiam. Se o modelo da influência estiver certo, as fontes de informação confiável serão premiadas. Então, o blogueiro solitário que puser informação a serviço de seus anunciantes será penalizado.

De certa forma, cada blogueiro é um ombudsman da blogosfera, eles estão sempre apontando os erros um do outro.

Sim, pois é. Existe um sistema de autocorreção.

E os outros produtos jornalísticos na rede, como a “Slate” ou a “Salon”?

Eu sou assinante da “Slate”. O que vemos é que já existe uma hierarquia de reputações se desenvolvendo na Internet. Nós vamos depender cada vez mais da Internet para notícias, principalmente conforme aparelhos de conexão mais portáteis vão surgindo.

O senhor arriscaria um prazo para que a Internet vire a principal fonte de informação?

Não, não, sou sempre um fracasso com essas previsões e constantemente me surpreendo com a velocidade de mudança.

Quando foi a última vez que o jornalismo mudou tanto?

Quando a imprensa foi inventada. Porque antes de Gutenberg, a maior audiência possível para uma notícia era a limitada pelo alcance da voz humana. A imprensa não apenas aumentou o tamanho da audiência como criou registros que podiam ser transportados de um canto para o outro. Isto foi o que fez a Igreja perder seu poder.

A Reforma?

Sim, porque quando as pessoas começaram a ler a Bíblia por elas mesmas, deixaram de precisar da Igreja para interpretá-la. Então, aquela foi uma mudança extremamente profunda. É possível que as mudanças trazidas pela Internet venham a ser igualmente profundas, de maneira que não conseguimos ver ainda.

Já dá para ver isto?

Não ainda. A velocidade do tráfego de informação aumentou e tenho a impressão que isto vai acelerar mudanças sociais. Mas poderia já estar acontecendo e simplesmente estamos próximos demais para perceber.

Quais serão os sinais para que percebamos estas mudanças?

Acho que será o aumento da demanda por democracia. Porque uma população informada é uma população poderosa, acho que foi James Madison (considerado o pai da Constituição dos EUA) que falou algo parecido com isso. Conhecimento é poder.

O “New York Times” era o símbolo de o que um jornal deveria ser. Bob Woodward, agora envolvido nesta confusão de fontes anônimas e crimes federais, era o símbolo de o que um repórter deveria ser por conta de seu trabalho em Watergate. Será que estes são sintomas de uma crise mais séria dos jornais impressos?

Não tinha pensado nisso. Mas Judith Miller (repórter estrela recém-demitida do “New York Times”) e Bob Woodward são aquele tipo de repórter de Washington que depende de fontes anônimas que estão no centro do poder. Fontes anônimas têm sido importantes porque é assim que algumas partes do governo, da estrutura do poder, podem comunicar coisas que não poderiam diretamente. É uma maneira de enviar sinais para as ruas que facilita o exercício da democracia representativa. Porque vários balões de ensaio têm que ser lançados para se medir a reação popular a determinadas medidas, e isto tem sido útil para o funcionamento do governo.

Mas isto é também perigoso para o jornalista, porque ele pode ser usado. Ao que parece, isto ocorreu tanto com Woodward quanto com Miller. Porque eles ficaram tão próximos de suas fontes no governo que se transformaram em apologistas do governo. Sempre foi preciso muito cuidado por parte do comando editorial para evitar este tipo de coisa. E, tenho a impressão, o “New York Times” vem se sentindo confiante demais nestes últimos tempos.

Não há mais um editor do porte de um Abe Rosenthal.

É isto. A família que controla o jornal já está na terceira ou quarta geração, talvez eles precisem de comando mais profissionalizado agora. Eu particularmente sempre preferi um jornalismo investigativo diferente do praticado por Woodward e Miller. É o baseado em documentos. Jornalismo investigativo baseado em fontes anônimas tem muitos riscos.

Existe uma maneira antiga de fazer jornalismo que está morrendo e uma nova nascendo?

Sim. O velho jornalismo era dominado por um único jornal local e, mesmo no nível nacional, sempre foram alguns poucos jornais que não respondiam a ninguém. Com os blogueiros ou mesmo com outros usos da Internet, esta cobrança da qualidade da informação está vindo e forte. Isto será bom para o jornalismo, o padrão de qualidade vai ser mais exigente. Grande parte da imprensa está acostumada com o monopólio da informação e ficou arrogante. A nova mídia será muito mais humilde e mais disposta a aprender.

Este jornalismo do futuro será muito fragmentado, então.

Sim, este híbrido de jornais, televisão e rádio na Internet será fragmentado, mas imagino que terá algum tipo de um gerenciamento centralizado. E este gerenciamento será mais inteligente.

Mas ainda falta um modelo de sustentabilidade.
Estamos num momento de transição agora. O velho modelo econômico já não sustenta mais e um novo ainda não surgiu.

Quais foram as reações a seu modelo de influência?

Bem, ele parece ser intuitivo para algumas pessoas. Certamente o era para nós no grupo Knight Ridder dos anos 70. As pessoas nos jornais gostam do modelo porque ele oferece um princípio econômico para aquilo que fazem. Minha preocupação é com a turma de Internet, não sei se eles entendem isso.

Não?

Eles não têm a mesma tradição de responsabilidade social que os jornais desenvolveram. Mas eu posso estar errado. Veja os caras do Google, que são obviamente muito inteligentes, algumas das decisões que eles tomaram mostram que eles são capazes de buscar mais recursos sem pôr em risco a integridade editorial.

Por exemplo?

A decisão de separar anúncios dos resultados de busca. Ou a decisão de vetar anúncios pop-up. Na verdade, agora que você me fez parar para pensar, talvez o conceito seja até óbvio. Se eu estiver certo e este modelo de influência for o melhor modelo econômico, o mercado vai premiá-lo. Então, mesmo as pessoas que venham de fora da tradição jornalística vão segui-lo para ter sucesso.